sábado, 3 de maio de 2014

Na Aldeia

Entretanto fui a casa da dona Emília — que era uma senhora que limpava sempre tão bem que até se podia lamber o chão depois da faxina — e pedi-lhe dois salpicões e uma cebola para confeccionar uns manjares. A dona Emília — que para além de manter a casa num brinco também é uma besta — lançou-me um enxorrada de ofensas e impropérios, ao que parece por eu ter limpo a lama das botas no tapete destinado às visitas e, para além disso, não é de bom tom pedir dois salpicões a uma senhora que toda a gente sabe ser hipertensa e não se pode dar ao luxo de consumir tais iguarias. Eu disse-lhe que minha senhora não se exalte, ao fim e ao cabo eu também sou uma visita e os tapetes servem mesmo para limpar os calcantes e antes que pudesse dizer alguma coisa acerca dos salpicões a mulher teve um espasmo e caiu redonda no chão.

Fui-me dali embora sem os salpicões e ainda por cima sem a cebola — que nem isso a sovina quis dispensar — e acelerei o passo até à mercearia que vende fiado, mas cujo dono só é afável quando faz bom tempo e não está demasiado calor. Nos últimos dias tem estado farrusco, por isso era quase certo que ia ter de pagar os malditos salpicões e a cebola e ainda tinha de saldar a dívida da semana passada, quando fui lá abastecer-me de uma saca de batatas para fritar, dois quilos de maçãs — que por acaso estavam óptimas — e uma dúzia de ovos. Ao entrar na mercearia dei conta que quem estava a atender não era o dono mas sim o filho, que costumava servir à mesa num restaurante lá da cidade mas foi despedido por andar sempre a surripiar azeitonas do pote. Depois disso voltou para casa do pai. Fiquei mais descansado porque entretanto reparei que não tinha comigo o porta-moedas.

Saí da mercearia com os salpicões e a cebola e fui para casa. Pelo caminho vejo um corrupio de gente a correr rua abaixo e ao fundo uma ambulância. Fui também ver o que era e apercebi-me que estavam todos a amontoar-se à porta da rabugenta da dona Emília e algumas das senhoras mais velhas soltavam gritinhos agudos, como o cão do sr. Almiro quando o malandro do neto lhe pisa o rabo. Perguntei o que se passava mas estava tudo num alvoroço e valha-me deus para aqui e acudam-na para ali e deixem passar para acolá, quando chegou o padre. Ao padre já responderam, coisa que me fez um bocado de espécie porque o que é o padre a mais do que eu se somos todos filhos de deus? Pelos vistos a cretina não morreu, foi só um desmaio e ainda bem porque senão ia ser um trinta e um para reaver a vassoura que lhe emprestei anteontem, quando a dela se partiu de tanto varrer.

Quando conseguiram reanimar a velhaca deram todos graças a deus e bendito seja o padre que em boa hora chegou, ao que eu disse: e os bombeiros, minhas senhoras? E aí foi logo um ai Jesus porque a imbecil da dona Emília desatou aos berros a dizer que eu era um corno e a culpa era minha e maldito sejas e mais as tuas botas e que eu devia ter vergonha por não sei o quê e mais a minha mãe e aí é que morreu mesmo, a histérica.
Não tive outro remédio senão sair dali a correr rua acima e ainda levei com um sapato que vim a saber mais tarde ser do padre. O pior é que deixei cair os salpicões, uma das velhas escorregou neles, caiu para trás e atropelou as outras que aí vinham. Só se salvou o padre porque não conseguia correr só com um sapato.

No funeral da dona Emília e da dona celeste — que eram primas e às vezes iam juntas à missa — o padre fez questão de mencionar os salpicões, dizendo que a gula e a inveja estavam na base desta tragédia. Eu achei aquilo um exagero mas não disse nada porque a verdade é que um dos viúvos estava de olho em mim e ainda me doíam as costas por causa do sapato do padre — que era realmente rijo, não admira que esteja sempre aflito dos joanetes.
Depois foi o funeral da dona São, da dona Berta e da dona Natércia, que era esposa do dono da mercearia onde nunca mais pude comprar fiado. Desta vez já ninguém falou dos salpicões mas deitaram-me cá uns olhares fulminantes que eu achei que o melhor mesmo era emigrar.
Com a pressa esqueci-me de trazer meias.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sibilante

Se Susana Sousa saísse sozinha, sabia saltar sobre seixos secos sem se sujar. Sabia soletrar sílabas simples. Sabia secar soalhos. Sabia semear salsa. Sabia situar seis secções semelhantes…
Sua sobrinha Sara Sofia Santos, sentinela, salvou sete senhores sem sangrar.
- Sara!
- Sim?
- Sobe!
- Sim, senhora!
Seguidamente Sara sentou-se sobre saliências sujas.
- Socorro! Sujei-me!
- Sara, sujas-te sempre! Safa! – Suspirou Susana.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Impostor

Partiu o velho naco de pão em três, um para ela, um para o homem, outro para o petiz. Era já muito rijo mas sabia bem mergulhado no leite. Sopas, como se diz.
Também três foram as leves pancadas que soaram da porta. Quem poderia ser tão cedo, era o que perguntava a mulher a si mesma enquanto tentava ajeitar o cabelo desgrenhado e oleoso que lhe cobria a face branca e exageradamente magra.
Era um homem vigoroso, limpo, fato impecavelmente engomado e gravata com um nó perfeito. Trazia uma mala. “Teria a bondade de ajudar com o que tiver, minha nobre senhora? É pelo bem da Nação.” A mulher condoeu-se do pobre senhor e logo lhe entregou o fio que trazia ao pescoço, uma lembrança que lhe dera a sua mãe. “É tudo o que tenho”, disse a mulher. “Muito obrigado. Que o senhor presidente esteja consigo”.
O cobrador de impostos guardou o fio na mala, junto das outras jóias, e partiu para a porta seguinte.
No outro mês tinha-se acabado o pão naquela casa velha e vazia.




Publicado no jornal O Riachense a 9 de Abril de 2014

sábado, 29 de março de 2014

Questão de Consistência

— Santinha!
— Obrigada. — disse a moça. Pediu-me um lenço que lhe entreguei de seguida.
— Parece que se resfriou, a menina.
— Assim é. Devo ter-me descuidado com os agasalhos.
Libertas as cavidades nasais dos mucos indesejados, prossegui o diálogo.
— Sabe menina, não quero que lhe pareça mal mas, como cidadão mais velho e vivido, sinto-me no dever de lhe oferecer um conselho, ou melhor dizendo, ensinar-lhe um truque valiosíssimo que a experiência de vida me ensinou e que passo agora a descrever. Há já várias décadas que deixo sempre um pacote de manteiga no parapeito exterior de uma janela, abrigada do Sol, como é evidente. Enquanto a consistência da manteiga não permitir o eficaz barramento do pão-de-forma, nunca saio à rua sem o meu sobretudo! Não me constipo desde 1972.


domingo, 23 de março de 2014

Inflamações

— Ai, Anacleto, ardo de paixão!
— Ardes?
— Mas que calores, meu amor!
— Sentes-te quente?
— Oh sim, quando estou perto de ti a minha temperatura sobe!
— Muito?
— Sim, meu anjo, estou tão quente agora!
— Então abraça lá esta panela e faz uma sopa.


quarta-feira, 19 de março de 2014

O Civil

Desta vez quase fui atingido, mas escapei por pouco. Os da esquerda atacavam sem piedade em todas as direcções, não tinham qualquer tipo de organização ou critério. Os da direita respondiam assertivos, com empáfia e uma certa malícia. Tentei improvisar uma barricada com o que pude encontrar, mas não tinha hipótese. Eram demasiados e o seu poder incalculável. Usavam todo o tipo de armas, desde as mais primitivas às mais modernas, fulminantes. Arrasavam tudo.
As galerias ecoavam sons ríspidos indecifráveis e de uma potência incrível, tal era a intensidade da luta e rivalidade. Já não aguentava mais, tinha de sair dali a todo o custo! Para onde quer que olhasse lá estava um, pareciam todos iguais mas lutavam entre si. Soltei um grito desesperado e apanharam-me. Esperneei, esbracejei e gritei. Tornar-me-ia um deles? Estava a enlouquecer. Foi a minha salvação!
Prefiro estar aqui encarcerado do que voltar lá, àquele campo de batalha horrendo.
É preciso ter estômago para ir ao parlamento.



Publicado no jornal O Riachense a 19 de Março de 2014

terça-feira, 11 de março de 2014

Conquistas

Venâncio e os seus homens pareciam estar a dominar a batalha. Restavam apenas dois marinheiros, comandados pelo capitão Baltazar, contra os onze de Venâncio. O zumbido das espadas silenciava as ondas que rebentavam no casco do velho navio. A luta pelas terras desertas era feroz mas Venâncio sorria, antecipando a sua nova conquista.
O capitão Baltazar foi encurralado na proa e não tinha hipótese. Com um golpe seco e sem misericórdia, Venâncio cortou a perna de Baltazar que caiu sem forças junto ao leme da sua própria embarcação.
Venâncio quis fazer troça do seu velho inimigo e avançou para as terras virgens sem o matar, para que Baltazar o visse clamar as novas terras. Os homens lançaram-se à água num pequeno bote e remaram sob as ordens de Venâncio que seguia de pé, mão esquerda na cintura e a direita empunhando a espada ainda ensanguentada.
Nisto, ouve-se um grito de raiva. Era Baltazar que pegara na sua perna cortada e a lançara para terra. Foi o primeiro a pôr o seu pé nas terras desertas e, por isso, era o legítimo conquistador! Venâncio ajoelhou-se pasmado e submeteu-se ao seu novo líder.


 “Nunca cortes a perna do teu inimigo, se o seu forte são os braços.”


segunda-feira, 10 de março de 2014

Formiga Rabiga e a Pobre Rapariga

Certo dia, o Coelhinho Branco foi à horta buscar couves para fazer um caldinho e quando de lá voltou encontrou a porta fechada. «Ora esta!», pensou o Coelhinho, e bateu à porta.
— Quem está aí? — perguntaram de dentro.
— Isso pergunto eu, a casa é minha! — respondeu o Coelhinho já a começar a ficar com os azeites.
— Eu sou a Cabra Cabrês que te salto em cima e te faço em três! — disse a Cabra toda fanfarrona.
— Ah não, hoje não, é muito tarde e a Rainha está à espera, tenha paciência! — exclamou o Coelhinho Branco enquanto agitava freneticamente o seu relógio — Ou sai imediatamente ou eu chamo a Formiga Rabiga que lhe trepa pelas pernas e lhe fura a barriga!
Nesse momento, surge Maria Alice a correr muito atrapalhada mas decidida.
— Não é preciso Senhor Coelho, eu estou aqui e vou ajudá-lo. Dê-me só um bocadinho da sua couve e vai ver que resolvo o problema num instante!
O Coelhinho Branco olhou Maria Alice de esguelha mas lá a deixou arrancar uma folha à couve. Maria Alice trincou um pedaço e mastigou.
— Um pouco rija... — disse Maria Alice e enfiou o resto da folha de couve na boca. Mastigou, mastigou e mastigou ruidosamente até que, depois de uma pequena pausa, engoliu a couve. A Cabra Cabrês que olhava com grande atenção através do buraco da fechadura deu um grande trambolhão e desatou a rir a bandeiras despregadas.
— Tu realmente não serves para nada! — resmungou o Coelhinho Branco.