domingo, 27 de abril de 2014
terça-feira, 22 de abril de 2014
segunda-feira, 21 de abril de 2014
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Sibilante
Se Susana Sousa saísse sozinha, sabia saltar sobre seixos secos sem se sujar. Sabia soletrar sílabas simples. Sabia secar soalhos. Sabia semear salsa. Sabia situar seis secções semelhantes…
Sua sobrinha Sara Sofia Santos, sentinela, salvou sete senhores sem sangrar.
- Sara!
- Sim?
- Sobe!
- Sim, senhora!
Seguidamente Sara sentou-se sobre saliências sujas.
- Socorro! Sujei-me!
- Sara, sujas-te sempre! Safa! – Suspirou Susana.
Sua sobrinha Sara Sofia Santos, sentinela, salvou sete senhores sem sangrar.
- Sara!
- Sim?
- Sobe!
- Sim, senhora!
Seguidamente Sara sentou-se sobre saliências sujas.
- Socorro! Sujei-me!
- Sara, sujas-te sempre! Safa! – Suspirou Susana.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
O Impostor
Partiu o velho naco de pão em três, um para ela, um para o homem, outro para o petiz. Era já muito rijo mas sabia bem mergulhado no leite. Sopas, como se diz.
Também três foram as leves pancadas que soaram da porta. Quem poderia ser tão cedo, era o que perguntava a mulher a si mesma enquanto tentava ajeitar o cabelo desgrenhado e oleoso que lhe cobria a face branca e exageradamente magra.
Era um homem vigoroso, limpo, fato impecavelmente engomado e gravata com um nó perfeito. Trazia uma mala. “Teria a bondade de ajudar com o que tiver, minha nobre senhora? É pelo bem da Nação.” A mulher condoeu-se do pobre senhor e logo lhe entregou o fio que trazia ao pescoço, uma lembrança que lhe dera a sua mãe. “É tudo o que tenho”, disse a mulher. “Muito obrigado. Que o senhor presidente esteja consigo”.
O cobrador de impostos guardou o fio na mala, junto das outras jóias, e partiu para a porta seguinte.
No outro mês tinha-se acabado o pão naquela casa velha e vazia.
sábado, 29 de março de 2014
Questão de Consistência
— Santinha!
— Obrigada. — disse a moça. Pediu-me um lenço que lhe entreguei de seguida.
— Parece que se resfriou, a menina.
— Assim é. Devo ter-me descuidado com os agasalhos.
Libertas as cavidades nasais dos mucos indesejados, prossegui o diálogo.
— Sabe menina, não quero que lhe pareça mal mas, como cidadão mais velho e vivido, sinto-me no dever de lhe oferecer um conselho, ou melhor dizendo, ensinar-lhe um truque valiosíssimo que a experiência de vida me ensinou e que passo agora a descrever. Há já várias décadas que deixo sempre um pacote de manteiga no parapeito exterior de uma janela, abrigada do Sol, como é evidente. Enquanto a consistência da manteiga não permitir o eficaz barramento do pão-de-forma, nunca saio à rua sem o meu sobretudo! Não me constipo desde 1972.
domingo, 23 de março de 2014
Inflamações
— Ai, Anacleto, ardo de paixão!
— Ardes?
— Mas que calores, meu amor!
— Sentes-te quente?
— Oh sim, quando estou perto de ti a minha temperatura sobe!
— Muito?
— Sim, meu anjo, estou tão quente agora!
— Então abraça lá esta panela e faz uma sopa.
— Ardes?
— Mas que calores, meu amor!
— Sentes-te quente?
— Oh sim, quando estou perto de ti a minha temperatura sobe!
— Muito?
— Sim, meu anjo, estou tão quente agora!
— Então abraça lá esta panela e faz uma sopa.
sexta-feira, 21 de março de 2014
quarta-feira, 19 de março de 2014
O Civil
Desta vez quase fui atingido, mas escapei por pouco. Os da esquerda atacavam sem piedade em todas as direcções, não tinham qualquer tipo de organização ou critério. Os da direita respondiam assertivos, com empáfia e uma certa malícia. Tentei improvisar uma barricada com o que pude encontrar, mas não tinha hipótese. Eram demasiados e o seu poder incalculável. Usavam todo o tipo de armas, desde as mais primitivas às mais modernas, fulminantes. Arrasavam tudo.
As galerias ecoavam sons ríspidos indecifráveis e de uma potência incrível, tal era a intensidade da luta e rivalidade. Já não aguentava mais, tinha de sair dali a todo o custo! Para onde quer que olhasse lá estava um, pareciam todos iguais mas lutavam entre si. Soltei um grito desesperado e apanharam-me. Esperneei, esbracejei e gritei. Tornar-me-ia um deles? Estava a enlouquecer. Foi a minha salvação!
Prefiro estar aqui encarcerado do que voltar lá, àquele campo de batalha horrendo.
É preciso ter estômago para ir ao parlamento.
terça-feira, 11 de março de 2014
Conquistas
Venâncio e os seus homens pareciam estar a dominar a batalha. Restavam apenas dois marinheiros, comandados pelo capitão Baltazar, contra os onze de Venâncio. O zumbido das espadas silenciava as ondas que rebentavam no casco do velho navio. A luta pelas terras desertas era feroz mas Venâncio sorria, antecipando a sua nova conquista.
O capitão Baltazar foi encurralado na proa e não tinha hipótese. Com um golpe seco e sem misericórdia, Venâncio cortou a perna de Baltazar que caiu sem forças junto ao leme da sua própria embarcação.
Venâncio quis fazer troça do seu velho inimigo e avançou para as terras virgens sem o matar, para que Baltazar o visse clamar as novas terras. Os homens lançaram-se à água num pequeno bote e remaram sob as ordens de Venâncio que seguia de pé, mão esquerda na cintura e a direita empunhando a espada ainda ensanguentada.
Nisto, ouve-se um grito de raiva. Era Baltazar que pegara na sua perna cortada e a lançara para terra. Foi o primeiro a pôr o seu pé nas terras desertas e, por isso, era o legítimo conquistador! Venâncio ajoelhou-se pasmado e submeteu-se ao seu novo líder.
“Nunca cortes a perna do teu inimigo, se o seu forte são os braços.”
segunda-feira, 10 de março de 2014
Formiga Rabiga e a Pobre Rapariga
Certo dia, o Coelhinho Branco foi à horta buscar couves para fazer um caldinho e quando de lá voltou encontrou a porta fechada. «Ora esta!», pensou o Coelhinho, e bateu à porta.
— Quem está aí? — perguntaram de dentro.
— Isso pergunto eu, a casa é minha! — respondeu o Coelhinho já a começar a ficar com os azeites.
— Eu sou a Cabra Cabrês que te salto em cima e te faço em três! — disse a Cabra toda fanfarrona.
— Ah não, hoje não, é muito tarde e a Rainha está à espera, tenha paciência! — exclamou o Coelhinho Branco enquanto agitava freneticamente o seu relógio — Ou sai imediatamente ou eu chamo a Formiga Rabiga que lhe trepa pelas pernas e lhe fura a barriga!
Nesse momento, surge Maria Alice a correr muito atrapalhada mas decidida.
— Não é preciso Senhor Coelho, eu estou aqui e vou ajudá-lo. Dê-me só um bocadinho da sua couve e vai ver que resolvo o problema num instante!
O Coelhinho Branco olhou Maria Alice de esguelha mas lá a deixou arrancar uma folha à couve. Maria Alice trincou um pedaço e mastigou.
— Um pouco rija... — disse Maria Alice e enfiou o resto da folha de couve na boca. Mastigou, mastigou e mastigou ruidosamente até que, depois de uma pequena pausa, engoliu a couve. A Cabra Cabrês que olhava com grande atenção através do buraco da fechadura deu um grande trambolhão e desatou a rir a bandeiras despregadas.
— Tu realmente não serves para nada! — resmungou o Coelhinho Branco.
sexta-feira, 7 de março de 2014
A Fábula
Uma vez contaram-me uma fábula. Falava de um pobre diabo condenado a passar a eternidade nas profundezas do inferno, pagando pelos pecados que cometera em vida. Certa vez, cansado que estava do calor e das torturas, o pobre diabo decidiu mudar. Passou a ser bom. Ajudava os seus semelhantes a refrescarem-se um pouco, dava-lhes abraços e beijos, espalhava sorrisos e distribuía palavras de esperança por toda a sua gente. Prometia tudo fazer para garantir uma melhor eternidade aos habitantes daquele inferno miserável. Era adorado por todos.
Olhando de cima, Deus comoveu-se com a bondade do pobre diabo. Mandou então dois anjos tratarem de o trazer para o céu. «Meu bom filho, vem que estás perdoado!»
Aliás, não era assim... Agora que penso não era uma fábula sobre um pobre diabo. Era antes a história de um membro de um partido que um dia chegou a Primeiro-Ministro. Fiz confusão.
Escusado será dizer que o rico diabo voltou a fazer diabruras.
Publicado no jornal O Riachense a 5 de Março de 2014
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