quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fumar Mata

Glup.
De uma assentada esvaziou mais um copo de whisky duplo. Depois entreteve-se com as pedritas de gelo. Primeiro, com os dedos dentro do copo, misturava-as com o vazio para um lado e para o outro, irritando o dono da taberna até quase perder as estribeiras. Logo enfiou-as na boca e cuspiu-as para o ar soltando uma risada histérica. « Basta!» Barafustou o taberneiro atirando a toalha para cima da caixa registadora «Não lhe sirvo mais nada! Salde a sua conta e dê corda aos sapatos!» O pinguço fez uma carantonha meio de espanto outro tanto de repúdio enquanto se inclinava para trás, mantendo o equilíbrio não se sabe bem como. Atirou-se para o balcão e agarrou a garrafa que escorropichou com enorme destreza. «Aaaaah!» Atirou umas moedas para o ar e cambaleou até à porta derrubando duas cadeiras e um cinzeiro pelo caminho. «Beço desgulpa, minha zenhora.»

Deteve-se abraçado a um simpático candeeiro que teve a amabilidade de o amparar evitando maiores infortúnios e investigou os bolsos até dar com os cigarros. Colocou um nos lábios e tacteou de novo a roupagem em busca do isqueiro. Levou algum tempo até conseguir alinhar o instrumento flamejante com a ponta irrequieta do cigarro. Por fim, lá fez a faísca. Antes que o cigarro tivesse tempo de se acender já o bafo alcoólico do homem tinha provocado uma enorme bola de fogo que iluminou a taberna por breves segundos.

«Estas explosões vão acabar por afastar a clientela» pensou o taberneiro enquanto riscava o nome do homem da sua agenda.


Publicado no jornal O Riachense a 5 de Agosto de 2014

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