sábado, 10 de maio de 2014

Nabos

Atirou o caixote com os nabos para cima da camioneta, sacudiu as mãos e dirigiu-se ao mercador. «São dez dinheiros, meu senhor» disse o agricultor. «Dou-lhe oito e para a próxima quero os nabos maiores, ouviu?» «Sim, meu senhor, obrigado.»

Transportados os nabos para o mercado foi a vez do mercador exigir o que lhe era devido. «Aqui tem os quinze dinheiros pelo caixote. Pode pô-lo ali.»
E ali ficou.
A noite caiu e à primeira badalada chegou o primeiro investidor. «Dou-lhe vinte dinheiros por esses nabos.» Sentou-se ao lado do caixote e esperou pela segunda badalada. «Belos nabos. Quanto quer?» «Trinta dinheiros.» Arrecadou-os no bolso e seguiu viagem. O seu lugar, ainda quente, foi ocupado pelo segundo investidor.

Ouviu-se a terceira e o terceiro chegou, acenando com os quarenta.
Veio o quarto com os cinquenta e os nabos ali estavam, à espera do quinto com os sessenta.
Quando o sino bateu as seis foi a vez do homem da mercearia. Os nabos eram agora Senhores Nabos de altíssima categoria. O homem pegou no caixote e, por fim, lá o fez seguir o seu curso.

«Como estão caras estas hortaliças, senhor Amílcar.» «Ora essa, Dona Custódia, nabos do melhor que há na região! Promoção especial a noventa e nove o quilo! Não os encontra mais baratos em lado algum!» «Ai se eu tivesse a minha hortinha...» suspirou a Dona Custódia, enquanto os outros esfregavam as mãos de contentes, que de nabos não têm nada porque levam os bolsos cheios. Todos menos o primeiro, o que faz crescer os nabos.




Publicado no jornal O Riachense a 7 de Maio de 2014

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