terça-feira, 4 de março de 2014

Gadelhas

O Príncipe estava já impaciente, agitando a colher para trás e para diante.
— Despacha lá isso, mulher! — Dizia, quase perdendo as estribeiras.
— Cá vou, cá vou! Não me apresses! — era Rapunzel. Vinha com a terrina da sopa nas mãos e o cabelo mal atado à cintura. Uma madeixa, porém, tinha-se soltado e prendera-se à porta do armário da cozinha. Rapunzel deu um gritinho estridente enquanto mandava um magnífico trambolhão. Felizmente já tinha prática e conseguiu entornar apenas metade do apetitoso caldo. O Príncipe suspirou e enfiou a cabeça no prato vazio. Ergueu-a de novo e resmungou:
— Diacho, mulher, sempre a mesma coisa! Corta-me o raio desse cabelo antes que haja chatices!
— E o patrocínio? Achas que o pão que comes cresce nas árvores? E os legumes trazem-nos uns duendes simpáticos? — Rapunzel sentou-se no chão e espremeu o cabelo. — E uma mãozinha, não vai? — O Príncipe lançou-lhe o guardanapo. — Paspalho!
— Vá, levanta-te e anda comer, tratas desse molho de brócolos mais tarde.

Servidos os pratos e sanados os ânimos começou o jantar.
— Puseste esparguete na sopa?
— Esparguete? Não, que disparate!
— Ah, mas que sina a minha! Cabelo na comida outra vez?!
— Põe à borda do prato.
O príncipe pegou numa ponta e começou a puxar. E continuou. E mais um pouco.
— Que nojeira. — murmurou o Príncipe. Rapunzel parou de comer e olhou-o demoradamente.
— Que figuras.
— Isto pega-se a tudo! — ripostou ele tentando desembaraçar-se e enrolando-se cada vez mais. — Raios! Come tu a sopa, eu vou ao pão com chouriço! — Levantou-se e dirigiu-se à cozinha ainda a esbracejar. Entretanto, Rapunzel também tinha encontrado um dos seus enormes fios capilares no prato. Ergueu-se da cadeira e foi limpar o cabelo que ainda estava ensopado.

Encontraram-se de novo no quarto.
— Não ponhas essa maldita cabeleira na cama, está cheia de cotão.
— Raios partam a electricidade estática.
— Não sacudas isso aqui, ainda começo a espirrar.
— Olha, pára de reclamar e dorme que amanhã é dia de o lavar.
— Chiça!
Apagaram as luzes e dormiram. O Príncipe teve pesadelos com a lavagem do cabelo e rebolou-se na cama toda a noite. Rapunzel também estava desassossegada. Os cabelos enredaram-se, emaranharam-se, embaraçaram-se, enrolaram-se e entrançaram-se durante horas até que o casal não pôde mais mexer-se.
— Socorro! Não consigo respirar! — gritou Rapunzel aflita
— Ai mãezinha! — Sobressaltou-se o Príncipe um tanto histérico.
— Ajuda-me seu sacripanta!
— Ai ai! Ai ai! Ai ai!
Abanaram-se, rebolaram-se, caíram da cama, fizeram força em todas as direcções mas em vão.
— És um inútil, odeio-te!
— Maldita! Quero o divórcio!
Tentaram separar-se durante dias, mas a marca de champô que os patrocinava era realmente muito boa, tornando os cabelos fortes da raiz até às pontas.
Foram sepultados juntos.



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