domingo, 23 de fevereiro de 2014

Reencontro

Era hoje!
Que diabo, quando as coisas têm de ser feitas há que fazê-las! Para quê adiar? E também já estava farto de perder noites de sono a pensar naquilo. Não, definitivamente não podia continuar assim. Tinha de pôr um ponto final àquela situação.
E foi assim.
Saí de dentro do pijama de flanela, que as noites ainda estão frias, e enfiei-me com eficácia num magnífico par de calças e numa excelente camisa. A ocasião merecia. Ainda me lembrei de aspergir um pouco de água de colónia. Nunca se sabe!

Peguei no casaco que a minha mãe me oferecera por ocasião do Natal (sempre preocupada com os agasalhos... enfim, há coisas que nunca mudam), chaves, carteira, chapéu e saí. Veloz. Não tinha tempo para pequenos almoços. Bem, para dizer a verdade, tinha era um daqueles nós no estômago que parecem dar a volta ao pescoço e depois às pernas... E não era para menos! Uma coisa destas mexe com os nervos de qualquer um, venha de lá o mais pintado.

Apanhei o autocarro mesmo a tempo. Sentei-me ao fundo, como sempre. Reparei que as minhas mãos transpiravam abundantemente. Tentei concentrar-me. Não podia abandonar agora. Tinha de ser hoje! A viagem parecia interminável. Deu-me tempo para rever várias vezes todo o plano. Nada podia falhar.
Por fim, chegou a minha paragem.

Subi a sua rua em passos curtos e cautelosos. Insegurança. Não era bom.
E lá estava eu, em frente à casa dela! Voltar para trás? Não, não, nem pensar, estava mesmo ali não ia desistir agora. Enchi o peito de ar e avancei para a sua porta. Estanquei-me por instantes, a rever mentalmente as palavras. Levantei o braço e toquei à campainha, determinado. Ainda podia fugir! Não, agora era tarde, ela podia ver-me e aí era o sarilho. A fechadura! Era decididamente tarde. Não havia nada a fazer. Era agora!

Ela apareceu, ainda com a marca na testa. Não havia dúvidas que tinha sido em cheio. Perplexa, não a deixei falar. Ataquei logo.
— Então diga-me lá, senhora professora, por que raio é que mandou chamar os meus pais à escola se foi o zarolho do Marivel quem atirou a primeira pedra? Não tenho culpa que o patife tenha má pontaria!


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