quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Burocracias

Era preciso tratar do papel com urgência.
Cheguei à repartição de finanças ainda não eram nove, ao contrário da senhora que abre a porta. Na minha vez tirei a carta do bolso do casaco e depositei-a em cima do balcão, ao mesmo tempo que dava os cordiais bons dias. A menina pediu-me que preenchesse uma formalidade e eu anuí. Claro que tive de desembolsar algum para ter acesso ao formulário, já se sabe ao preço que vai o papel, se for carimbado então...

«Agora é só esperar entre dez a quinze dias úteis e pode vir levantar o seu documento.»

Com a breca! Mas por que diabo levam sempre tanto tempo a emitir um simples papel? Desta vez não fui capaz de conter o meu impulso. Saltei por cima do balcão com uma agilidade notável e corri em direcção à porta que dizia, em letras garrafais, “ENTRADA RESTRITA”. Só podia ser aquela. Antes de ser atropelado pelo segurança que me levou à esquadra ainda consegui ver. Ou pelo menos acho que não sonhei, a pancada ainda foi forte. Dentro da sala estavam: uma tartaruga das galápagos a carimbar, um tigre de bengala a arquivar e dois pinguins que pareciam mesmo estar a assinar documentos, mas não tenho a certeza porque acho que as canetas não funcionam daquela maneira.

De qualquer das formas está tudo explicado. Os pobres bichos podem ser muitíssimo mais inteligentes, especialmente os pinguins, mas não têm polegares para manejar os papéis e as canetas e os carimbos e tudo o resto! Assim também eu demorava uma eternidade.




Publicado no jornal O Riachense a 19 de Fevereiro de 2014

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